A democracia do sofrer

Caminhando para quase quatro anos trabalhando na clínica do sofrimento psíquico grave, alguns aprendizados encontrados no percurso permanecem conosco durante muito tempo.

Se existe algo nessa vida que é realmente democrático é o sofrimento psíquico. Este sim está para todos. Afinal, todo mundo na vida tem um jeito de ser, e tem também um jeito de sofrer. Com isso, cada um vive e sofre a seu modo. Estamos falando de uma maneira de estar no mundo, que implica suas dores, mas também suas delícias. Basicamente a gente vai vivendo à medida em que sofre, ou vai sofrendo à medida em que vive e no meio do caminho vamos encontrando alguns prazeres.

Nossa sociedade construiu para si mesma ideais complexos e paradoxais que muito participam da origem do sofrimento psíquico atual. Por um lado, vivemos em uma espécie de ditadura da felicidade, na qual nos é dito que é preciso ser feliz a todo custo. O objetivo da vida é ser feliz, uma felicidade plena e em tempo integral e, se você não é feliz assim, há algo de errado em você. Por outro lado, diz-se que essa felicidade plena virá pela via do consumo: seremos felizes consumindo. É aquele tipo de pensamento que se repete em nossas cabeças “quando eu puder comprar isto que desejo, aí sim serei feliz”.

Com isso, sofrem aqueles que não tem dinheiro para consumir porque suas condições financeiras lhe privam da felicidade prescrita. Quanto aos que de fato têm dinheiro e até podem consumir, no fim do dia eles sofrem também, e sofrem porque vem a descobrir que essa promessa não é cumprida, a felicidade do consumo dura só um pouquinho e a vida continua tendo lá seus problemas. Algumas vezes, porém, sob certas condições, o sofrimento psíquico beira o insuportável. As dores de ser quem se é começam a ser mais fortes do que as delícias que nos são permitidas acessar. E este é o momento que geralmente se recomenda procurar ajuda profissional.

O campo da saúde mental é bastante complexo e inúmeras categorias profissionais são chamadas a colaborar nesta área. Todas elas são igualmente importantes e a multiplicidade de saberes apenas reflete a complexidade do fenômeno humano e das dores do viver. Entretanto, além de muito preparo técnico e formação continuada, existe uma característica especial que faz toda a diferença na prática do profissional de saúde mental. Isso mesmo, saber todas as teorias não garante que o profissional cuidador conseguirá desempenhar sua função com maestria: cuidar da dor.

Faz realmente a diferença quando aqueles que sofrem conseguem encontrar um profissional com tal característica. Se tivéssemos que dar um nome, seria uma espécie de “abertura ao sofrimento”. Para realmente cuidar da dor do outro, é preciso que aquele que cuida seja capaz de olhar para quem sofre e ver ali um semelhante, uma vida que assim como a dele próprio é marcada pela capacidade de sofrer inerente à condição humana. Insisto que tal capacidade está colocada para todos quando somos lançados no mundo. Estando advertidos sobre isto, agora também sabemos que de um encontro assim pode se fazer surgir uma existência menos sofrida.

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