A entrada no hospício

Algumas experiências pelas quais passamos na vida deixam suas marcas e ressoam dentro de nós muito tempo depois de terem acontecido. Para mim, a experiência de entrada num hospício está situada entre esse tipo de experiência.

Em uma consulta rápida a um dicionário online, encontramos que hospício vem do latim hospitium, remonta a hospedagem e significa casa ou estabelecimento onde se recolhem órfãos, enfermos, doentes mentais, velhos, abandonados e peregrinos. Em um estudo aprofundado sobre a história desse tipo de instituição, encontramos que os hospícios são herdeiros e surgem no mesmo lugar – simbólico e arquitetônico – dos antigos leprosários, onde os leprosos eram abandonados para morrer como forma de expiarem seus pecados, como Foulcaut nos ensina.

Basicamente é um local construído para dar lugar àqueles que estavam fora da normativa social da época, operando uma curiosa dinâmica de exclusão, na qual pobres, vagabundos, pessoas sem documentos, mulheres que engravidaram antes do casamento e os chamados loucos eram confinados bem longe dos olhos da sociedade. A palavra Hospital Psiquiátrico é mais recente e remonta a toda uma história na qual a medicina veio a se ocupar da loucura, separando-a dos outros excluídos.

Hospitais Psiquiátricos, hospícios e lógicas de exclusão existem ainda hoje e atravessam nossa cultura e sociedade. No início de 2018, recém formado e com pouquíssima experiência prática, numa das reviravoltas do destino, me vi enquanto psicólogo residente em um hospital psiquiátrico público. Inocente, chegara eu em outro estado brasileiro para trabalhar com a loucura. Com muita vontade de trabalhar, entrei com os dois pés no hospício.

O contato com a loucura do outro é sempre uma experiência impactante, porque nos remete à nossa própria loucura, à nossa própria capacidade de enlouquecer. Mas o que encontrei naquele lugar foi um daqueles pontos na vida que alteram todas as experiências que vêm depois.

Era domingo de páscoa e a maioria dos profissionais do hospital estavam no conforto de suas casas, exceto pelos residentes; pois residentes trabalhavam aos feriados. Claro, estavam no hospital também os pacientes e aos domingos eles tinham uma das escassas oportunidades de sair das enfermarias e acessar um pátio interno, com gramado e quiosque, no qual as enfermarias masculina e feminina se conectavam.

Quando entrei na enfermaria a encontrei esvaziada. Onde estavam os pacientes? No pátio interno, encontrei homens e mulheres, em sua maioria negros, porque o hospício é preto, mas também brancos, esquizofrênicos, bipolares, com retardo mental, depressivos, paranoicos e usuários de álcool e outras drogas numa alegria, rindo, se abraçando, cantando, dançando e curtindo ao som de Pabllo Vittar.

Havia ali uma experiência extrema de inclusão num espaço de exclusão por excelência. Nesses tempos sombrios em que vivemos, nos quais os discursos únicos, operadores de exclusão e os fascismos cotidianamente seduzem mais e mais pessoas, me agarro à democracia da loucura e do sofrimento mental, que seguramente está para todos, e penso comigo que há mais humanidade na loucura do que na própria humanidade.

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