Vaidade nossa de cada dia

O ser humano passa boa parte da vida tentando se fazer sujeito. Quando nascemos, enquanto crescemos, é à partir do olhar do outro que vamos nos encontrando, descobrindo o que é que somos e, nesse sentido, vamos nos construindo pouquinho a pouquinho à partir do que o outro diz que somos.

Dessa forma, ao longo da vida, vamos assumindo diferentes máscaras e interpretando distintos papéis que julgamos que figurariam belos ao olhar desse outro. Isso ocorre porque o amor que o outro investe em nós vai nos permitindo amar a nós mesmos também. Esse processo dura muito tempo e, se nenhum acontecimento vier a alterar isto, é bem possível viver o tempo todo buscando aprovação alheia.

Se pararmos um pouquinho para pensar, na corrida pelo sucesso profissional, por se tornar alguém “reconhecido” há muito dessa dinâmica narcísica. Se eu consigo convencer o outro de que sou realmente bom no que faço, talvez no meio do caminho eu também consiga acreditar nisso. Nesta operação, mata-se dois coelhos com uma só cajadada: ao mesmo tempo em que negamos nossas falhas e incompletudes, que são inerentes à nossa condição humana e estão colocadas para todos, é possível investir certa quantidade de amor em nós mesmos à partir de uma validação externa.

A quem deveríamos culpar, se nossa sociedade o tempo todo estimula isso? Se olharmos com atenção, encontraremos lógicas da vaidade em inúmeras áreas da vida. Hoje em dia nos definimos por aquilo que parecemos ser e nos esforçamos para parecer ser diferente do que realmente somos. Tomando o exemplo das redes sociais, se eu consigo parecer feliz, então talvez eu me sinta feliz. Se eu consigo parecer saudável, então talvez exista saúde em mim. Se eu consigo parecer rico, talvez haja riqueza em minha vida.

De qualquer modo, minha clínica avançou quando pude aprender que no trabalho em saúde mental vaidade pouco ajuda e, na realidade, representa um grande obstáculo a um trabalho realmente significativo. Afinal, quem acredita que sabe de tudo, já não consegue aprender mais nada. Quem gosta de pensar que tem todas as respostas não consegue ouvir – e sem escuta não há clínica em saúde mental.

Por isso, gostaria de trazer alguns desejos especiais. Que possamos tolerar estar em falta. Que aqueles que tratam de sofrimento psíquico possam suportar silenciar a si mesmos para fazer aparecer o sujeito de seus pacientes e que os pacientes possam encontrar profissionais com uma vaidade já tratada.

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