Quem disse que o corpo não pensa?

No primeiro domingo deste ano que se iniciou, eu, que quase nunca pratico exercícios físicos, participei de uma grande corrida regional. Milhares de pessoas, com algum tipo de deficiência ou não, atletas profissionais ou não, fantasiados de personagens engraçados ou não, se reúnem para percorrer 10 km em determinado trajeto pelas ruas da capital. Todos que completam o trajeto ganham medalhas, sem exceção. Em nosso estado,  costumamos humildemente comparar nossa Corrida de Reis com a grande e mundialmente conhecida São Silvestre. É o que temos.

Para nossa sorte, estava chovendo. Uma chuva nem muito forte ao ponto de atrapalhar a visão dos corredores, nem muito fraca de modo a deixar as ruas livres de enxurrada. De qualquer forma, pudemos correr sem produzir suor ou passar mal devido à insolação. O que foi muito bom.

Em algum momento de meu trajeto pessoal, minha corrida transformou-se em uma grande metáfora sobre nossa vida, nossos sonhos e o processo de viver. Lembrei-me do conto “O mistério do coelho pensante” de Clarice Lispector. Nesta curiosa história, aquele comportamento típico da espécie de mexer o nariz é descrito como o jeito do coelho pensar as ideias. Segundo a narrativa de Clarice, para cheirar uma só ideia, ele precisava franzir o nariz umas quinze mil vezes!

Não é apenas no cérebro que existem neurônios, as células que constituem nosso Sistema Nervoso e se comunicam por sinapses. Antes de colocar-me a cogitar se o estômago e os intestinos, lugares repletos de neurônios, pensam, gostaria de descrever que, durante uma experiência corporal de participar de uma corrida, pude pensar coisas que me foram importantíssimas.

Eu, sendo uma pessoa que não pode ser descrita como repleta de preparo físico, logo na partida repetia comigo mesmo que se eu fizesse 2 km em um ritmo mediano de trote estava feliz com meu resultado, podendo andar o resto da corrida. Os 2 km chegaram, e então eu pensei que 3 km estaria de bom tamanho. Não demorou a fazer o terceiro, e, estando em bom estado de resistência, desafiei-me a fazer os 4 primeiros no mesmo ritmo.

Porém, antes que eu completasse o quarto, uma das pessoas com as quais eu corria, sim, eu não estava sozinho na multidão, comentou que faria os 7 primeiros km naquele ritmo em que estávamos. Achei que não daria conta de acompanhar, o cansaço já estava presente… Mas ao desafiar-me a fazer igual consegui fazer os primeiros 7 km do percurso no mesmo trote, não sem esforço ou dificuldade. Disso teve origem uma compreensão que, para mim, foi muito forte: somos capazes de mais do que imaginamos se insistimos em continuar prosseguindo.

Longe de ser a única reflexão daquela corrida, no 5º quilômetro coisas já haviam invadido a minha mente. Enquanto eu só pensava no meu cansaço e se faltava muito para a marca dos seis mil metros, algumas pessoas voltavam correndo pela outra rua exibindo suas medalhas brilhantes no pescoço. Sim, eram corredores que já haviam acabado a corrida, recebido a medalha e voltado correndo pela mão contrária exibindo todo o preparo físico de que dispunham. 

Bem, este é um pensamento que passou pela cabeça de alguém que estava ofegante no 5º km de prova, mas não quer dizer que esteja completamente errado: “ainda que cada um tenha seu próprio ritmo e comparações sejam complicadas, algumas pessoas encontram satisfação em exibir seus grandiosos talentos”.

Alguns quilômetros depois, começou a acontecer algo curiosíssimo. Algumas pessoas que não estavam participando da corrida, colocavam-se na calçada e com sorrisos cheios de deleite encorajavam-nos: “bora”; “vamo corre pessoal”. Em dado momento, passamos em frente a um hospital e profissionais de jaleco que estavam reunidos do lado de fora para observar a corrida protestavam com alguns participantes que estavam caminhando: “assim não vale, tem que correr”.

O auge dessa situação foi quando apareceu um senhorzinho com um guarda-chuva, uma taça de vinho na mão e uma caixa de isopor no chão, ironicamente e entre gargalhadas bradando: “isso ai, vamo corre meu povo”. Que desaforo. Pessoas que estão de fora da corrida, que pouco podem compreender sobre as dificuldades, o esforço e a superação de quem está ali ofegante encarando os próprios limites, gritarem ou sugerirem alguma coisa para quem está correndo sob a chuva.

É por isso que psicólogos não dão conselhos. Sabemos que quem está na corrida e embaixo de chuva não somos nós. Sabemos que independente de qualquer juízo pessoal, quem pode se molhar é quem está na corrida. É por isso que possuo tendência a desconfiar de profissionais que se sentem confortáveis para atuar e opinar sob a segurança de seus guarda-chuvas.

Quando cheguei ao sétimo quilômetro, precisei diminuir meu ritmo. Já não aguentava mais trotar. Precisava de algum descanso, ainda que precisasse fazer isso andando… Então, na seguinte sequência completei o percurso: caminhei meio km, corri mais meio, caminhei mais um, corri o último.

Nessa parte final de muitas dificuldades, fiz um paralelo importante com todos os sonhos que possuo e ainda não alcancei: por vezes precisaremos usar nossa energia com inteligência para conseguir chegar ao destino final. Por vezes vamos nos sentir cansados de correr atrás de coisas que parecem não chegar. Nestes momentos, é possível diminuir a velocidade e se recuperar, para então ser capaz de correr mais um pouquinho.

Consegui chegar inteiro ao final da corrida. Foi a primeira medalha que ganhei em minha vida e uma experiência tão boa que me pareceu uma ótima forma de começar o ano. Daqui 12 meses correrei de novo.

Por Larric Malacarne.

 

 

 

 

 

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