[Entrevista] Psicóloga Vanessa Proença conta um pouco sobre o seu dia-a-dia no hospital

A Psicologia enquanto ciência e profissão é uma coisa imensa, fundamental e transformadora. Diante disso, todas as vozes que puderem colaborar no sentido de fazer conhecer essa prática tão importante são bem-vindas, afinal, as possibilidades são muitas.

No texto de hoje, minha amiga e colega de profissão, a Psicóloga Vanessa Proença, nos contará um pouco sobre o seu dia-a-dia em um hospital universitário da capital mato-grossense.

Vanessa Proença é Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (2011-2016). Participou de projetos de pesquisas como bolsista de Iniciação Científica (2012-2016) junto ao Grupo de Pesquisa de Estudos de Filosofia e Formação. Foi bolsista de extensão na UFMT pelo projeto “Práticas clínicas e pensamento psicanalítico: a Psicologia na Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso” no ano de 2016. Realizou estágio curricular básico nos contextos socioeducativo, sócio-comunitário, organizacional e de saúde, tendo estagiado neste último no Centro Integrado de Assistência Psicossocial Adauto Botelho – Ala Feminina. Realizou estágios curriculares supervisionados clínicos na Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPMT) e no Serviço de Psicologia Aplicada do Departamento de Psicologia da UFMT. Atualmente é Psicóloga Residente do Hospital Universitário Júlio Müller no Programa de Residência Multiprofissional com ênfase em Saúde Cardiovascular do Adulto e do Idoso. Realiza Aperfeiçoamento em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise na UFMT/Cuiabá. Realizou estudos e pesquisa voltados para a área de Educação e Filosofia da Diferença. Atualmente, os estudos e pesquisas tem como foco teoria e clínica psicanalítica na contemporaneidade e psicologia hospitalar (Fonte: Lattes). A Vanessa também escreve, então, se quiser conhecer um pouco mais sobre o que ela tem para dizer clique aqui.

A entrevista à seguir foi a ela enviada para que fosse respondida em formato escrito. É possível que nem todo mundo saiba, então, digo aqui que programas de residência são fruto de uma parceria do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde brasileiros e possuem como finalidade a formação de recursos humanos para o trabalho na área de saúde. Essa formação ocorre pela prática, pelo trabalho, ou seja, os profissionais da saúde aprendem a fazer fazendo, e são remunerados por isso. Isso não descarta o estudo teórico, que é um componente previsto desses programas. Mas agora chega de falar. Neste ponto, passo a palavra à Vanessa Proença.

 

1) Qual a sua ocupação?

Sou Psicóloga Residente vinculada ao Programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde do Adulto e do Idoso com Ênfase em Doenças Cardiovasculares.

2) Em que instituição(ões) se desenvolve a sua ocupação?

A residência ocorre nas dependências do Hospital Universitário Júlio Müller e também na Clínica da Família localizada no Bairro CPA I. Na Clínica da Família, os residentes atuam junto ao Núcleo de Apoio a Saúde da Família.

3) O que você faz em um dia comum de atividades?

A Residência é híbrida. Afirmo isso porque, além de ser uma profissional, também sou uma estudante. Ou seja, ao longo dos dois anos de duração, cumpro uma carga horária prática (geralmente pela manhã) e teórica (geralmente pela tarde). As atividades práticas, durante o primeiro ano de residência  (no qual estou), consistem em realizar atendimentos no leito ao/a paciente. Além disso, também acolhimento a familiares/acompanhantes e atuação junto a equipe médica.

A realização dos atendimentos ocorrem por duas vias: durante a passagem de visita ou intercorrência. Quanto as visitas, a equipe multiprofissional composta por psicóloga, nutricionista, assistente social e enfermeiros, passam de leito em leito colhendo informações necessárias. Geralmente, quem conduz essas visitas são enfermeiros e nutricionistas, por terem uma espécie de roteiro de perguntas a serem realizadas. Enquanto psicóloga, fico atenta a qualquer questão que o/a paciente pode apresentar que destoa de uma resposta racional. Ou seja, fico atenta a uma possível demanda psicológica atrelada ao motivo pelo qual se encontra no hospital (cirurgia, gravidez, etc). Quando percebo algo, pergunto ao/a paciente se tem interesse em atendimento ou, após a visita em todos os leitos, retorno a quem me chamou atenção, pontuo o que notei e pergunto se quer conversar um pouco mais sobre a questão que levanto ou qualquer outra coisa.

No momento da visita costumamos nos apresentar, dizer nosso nome e profissões. Quando isso acontece, é possível que o próprio paciente peça para “conversar um pouquinho depois”, ao dizer que sou psicóloga. Os atendimentos também são realizados a partir das intercorrências, ou seja, quando a equipe médica e/ou de enfermagem acreditam que algum/a paciente necessita de atendimento psicológico, pelas mais diversas razões.

É importante ressaltar que não atendemos a todos os pacientes do hospital. Por exemplo, como a ênfase da residência é em saúde do adulto e do idoso, a demanda da pediatria não é atendida. Além disso, atualmente há 6 psicólogas residentes, que se dividem para atender as demandas das clínicas médica, cirúrgica e ginecologia e obstetrícia.

Quando os residentes vão para a Clínica da Família, é o momento em que há oportunidade de aprender e atuar junto a atenção básica. Realizamos lá atividades como Sala de Espera, onde fazemos falas de até 15 minutos, por exemplo, sobre alimentação, ansiedade, uso de medicamentos, etc. É uma via de se realizar educação em saúde com a comunidade atendida. Além disso, também temos um programa na Rádio Comunitária do CPA I. A rádio também é um forma de realizarmos educação em saúde, já que tratamos de temas como os níveis de atenção em saúde, a saúde de populações específicas como a LGBT, etc.

As atividades práticas descritas até aqui são realizadas pela manhã, e na parte da tarde são realizadas, em sua maioria, atividades do campo teórico. Ou seja, aulas, tutoria, e atividades de ensino específica a cada área que compõe a residência.

4) Quais os principais desafios com os quais você precisa lidar no seu dia-a-dia?

O principal desafio para mim, no momento, é viver de fato a Instituição, os estigmas e relações que a permeiam. Então, aprendo a cada dia como me relacionar com a equipe médica, com a minha equipe multiprofissional, com os demais profissionais seja da instituição hospitalar ou da clínica da família.

É ter que sair da zona de conforto, quase que o tempo todo. Lembrar que dentro desses espaços, mesmo sendo estudante, também sou profissional e que é deste lugar que respondo. É desafio entender que a minha função dentro desse espaço de trabalho não é só de escuta, mas também de fala que permite me posicionar enquanto profissional ética e politizada. Afinal, é necessário saber direitos e deveres, por exemplo, e que a minha formação teórica-profissional não dá conta sozinha.

Trabalhar no hospital (e em qualquer instituição, me parece) trata-se de relações e frente a elas é, ao menos para mim, de fato sair da zona onde as coisas chegam – demandas, o que tem que se fazer ou não, etc – e ir buscar as demandas também; conversar e se posicionar de maneira que o pessoal/egoico não atravesse. É tempo de aprender a andar, a falar por si. E isso, sem dúvidas, é desafio. Porém, acredito que é só em meio aos tensionamentos que algum aprendizado pode ser constituído, então os desafios não são de todo ruim.

5) De que forma você acredita que sua ocupação contribui para a vida das pessoas e para a sociedade de modo geral?

Hmm… capciosa essa pergunta. No hospital eu costumo ouvir coisas como: “é bom ter alguém para desabafar”; “que bom que você veio, porque ao menos não fico sozinha”; “e hoje, não vamos conversar?”. Assim, em meio ao contexto hospitalar, acredito que a minha ocupação contribui para que o momento que ali está sendo vivido, bem como as tensões e questionamentos que ali são suscitadas encontre vazão pela palavra e possa se dar algum sentido ao que é vivido.  Desta forma, a angústia por estar hospitalizado pode se atenuar.

No hospital os atendimentos são rápidos. Há pacientes que eu atendo uma única vez. Há outros, dependendo do tempo de internação, que atendo mais vezes. Esses momentos são importantes, porque com os cuidados necessários, questionamentos podem ser colocados, pensados e trabalhados. O movimento de questionamento que ocorre no leito, penso ser importante para que a pessoa se perceba em meio ao que se vive e, bom, as pessoas vivem em sociedade. Logo a minha profissão pode contribuir com essa percepção de si em meio ao seu cotidiano, com questionamentos e movimentos em que não se fique tão alienado em relação a sociedade mas, principalmente, em relação a si mesmo.

6) Na sua opinião, qual a importância dos profissionais de psicologia na sociedade contemporânea?

Acredito que a nossa profissão – independente da abordagem – se propõe a algumas coisas: escutar, questionar e proporcionar que a palavra circule. Estamos em um momento político muito complicado, onde o silenciamento é cada vez mais pautado e imposto, mesmo que de maneira sútil. Assim, acredito que a nossa profissão – na clínica, na escola, nas empresas, na comunidade, em presídios, defensorias, CRAS, entre outros – contribui para que o escutar, o questionar e o circular de palavras sejam fomentados. Primeiro, em relação a si e, deste modo, em relação a sociedade. O que se escuta, questiona e se fala em relação a si e em relação a sociedade contemporânea em que se vive? Acredito que o trabalho da psicologia dá algumas direções para tais questionamentos, porque enquanto profissionais temos a função de que o sujeito fale, diga de si e se perceba, conosco ali, acolhendo e ajudando a dar algum contorno para as situações postas.

7) Existe mais alguma coisa que queira comentar conosco?

Somente que frente a qualquer dúvida, me coloco a disposição para continuar a conversa. E isso pode acontecer pelas minhas redes sociais ou pelo e-mail psicologavanessap@gmail.com.

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