-Psicólogo é um ótimo conselheiro, certo? Não. Ao menos não deveria.

     A imagem do profissional de Psicologia enquanto um ótimo conselheiro é, de fato, muito comum entre as pessoas que não passaram cinco anos de suas vidas estudando Psicologia. Para ser bem sincero, muitos colegas entram no curso alegando enquanto motivos de sua escolha profissional o fato de sempre terem sido bons conselheiros.

     Pois bem, muito cedo no curso a gente acaba aprendendo, ao menos em minha formação foi assim que ocorreu, que psicólogo não é conselheiro. Hoje em dia fico imaginando: como seria um curso que preparasse os profissionais para deter todos os conselhos possíveis em todas as situações humanas distintas capazes de existir? Me parece bastante cômico imaginar um professor chegando na sala e dizendo algo como: “Oi gente, hoje vamos estudar conselhos amorosos. Tópico 01, casos de traição: conselhos pertinentes”.  Logo vamos percebendo que nem mesmo um curso de duração infinita seria capaz de dar conta de abordar todas as situações, histórias, enredos, contextos, tramas possíveis. Cada vida é uma vida. Cada história é uma história. As coisas acontecem de maneira singular para cada ser humano e são, inclusive, vivenciadas de forma distinta por cada um.

     Um entrave sério na questão do psicólogo assumir a postura daquele quem fornece conselhos, ao meu ver, refere-se à questão da responsabilidade e da autonomia do sujeito. Se o psicólogo aconselha o indivíduo, de algum modo retira dele a autonomia e a responsabilidade de tomar uma decisão por si, a partir da realidade em que vive. Assume para si uma tarefa que cabe ao próprio sujeito. É inegável o quanto pode ser confortável receber respostas prontas. Entretanto, quem melhor conhece a história vivenciada é justamente aquele quem passou por ela, quem viveu na pele tudo aquilo que, de alguma forma, tenta transmitir ao psicólogo por meio das pequenas caixas que são as palavras. A partir disso, é justamente essa pessoa, inclusive, que irá arcar com as consequências de toda e qualquer decisão tomada, e não o psicólogo. O psicólogo pode, contudo, pensar junto com o sujeito acerca das possibilidades e consequências intrínsecas aos caminhos a serem tomados. Cabe a este, todavia, a escolha de qual melhor lhe convém, afinal, a caminhada é dele.

     Ilustremos: vamos imaginar que um psicólogo aconselha uma mulher a enfrentar o marido, que é violento. Quem viveu anos ao lado de tal homem foi esta mulher, e quem o conhece melhor é justamente ela, mas é o psicólogo que orienta que seja feito um enfrentamento. Já começamos a notar uma inadequação nessa posição, mas levemos o exemplo um pouco mais adiante. Se essa mulher é brutalmente violentada após o enfrentamento, ela terá vivido na carne as consequências de seguir a opinião de um terceiro. Ou seja, quem pode apanhar ou até morrer é a mulher do nosso exemplo, e não o psicólogo. Assim chegamos na questão da responsabilidade pelas nossas escolhas e pelas consequências delas advindas. Por isso, é muito importante que o psicólogo possibilite que os sujeitos possam tomar por si suas próprias escolhas, a partir de seu próprio mundo. E isso tem a ver com a autonomia.

     Não quer dizer que o psicólogo não possa colaborar com ideias, pontos de vista distintos daqueles apresentados por aquele que o procura. Quer dizer que a escolha sempre deve ser feita pela pessoa, e esse direito, que é também uma responsabilidade, precisa ser algo constantemente assegurado pelo psicólogo. Salientemos ainda que, escolher não escolher e seguir o conselho de alguém, é também uma escolha, que inclui consequências. Então, no fim, não temos muito para onde fugir. Alguma responsabilidade sobre nossa vida é a nós que cabe, e precisamos arcar com ela. Isso faz toda a diferença.

Por Larric Malacarne

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