Instagram, capitalismo, felicidade e consumo

A sensação se repete: você abre o Instagram e começa uma enxurrada assediadora de ofertas imperdíveis. Um novo produto, um livro imperdível, uma consultoria, um tipo de serviço, uma ideia ou estilo de vida. De repente, você se pega questionando: será que eu preciso disso e não sabia? O feed rola e as ofertas se acumulam. De repente, o jeito que você estava vivendo parece todo errado, pouco eficiente, obsoleto. Há sempre um jeito melhor de fazer as coisas ou um produto que promete mudar as regras do jogo. A oferta cria demanda. Cria mesmo?

Cá comigo, acho que esses produtos particularmente problemáticos: prometem uma grande revelação, mas fazem isso escondendo as regras do jogo.

A psicanálise tem aí um século de existência repetindo que a falta é inexorável ao humano, e que a vida pulsa justamente na busca de lidar com isso. Não tem o que fazer: falta mesmo e vai faltar. É por isso que a gente deseja, busca, trabalha e vive.

O capitalismo nos diz que nossa falta é um problema, e que há um problema conosco na persistência dessa falta. Se faltar é um problema, consumir é a solução, e o produto / milagre nos permite operar como cirurgiões de nós mesmos, suturando a falta na esperança de paz. É a lógica que vai dizer algo como  ” quando eu tiver tal coisa, aí sim serei feliz”.

A sutura da falta cria outro problema. Afinal, diferente da promessa do capitalismo, a demanda não se ancora no consumo, e logo se atualiza em outra coisa. Meio cruel não é?

Lacan dizia que a falta da falta é completamente angustiante. Dá pra imaginar: é como não saber o que se quer comer e ir a um rodízio pra enxer a barriga. Nessa situação, algo não desce bem. E a gente come, come, come e a fome não passa. O sentimento que se produz é de colorido melancólico, algo como “não sei o quê ainda me falta”, “apesar de não me faltar nada, ainda não me sinto feliz”.

E essa demanda vai chegar aos consultórios dos profissionais psi, pela busca do medicamento ou de novas promessas. Algo que conserte essa felicidade quebrada.

Desconfiado que sou, não acredito nas promessas do capitalismo. Acho que quebraram nossa capacidade de coexistir e se impulsionar na falta. Que pena.

Por Larric Malacarne.

Ilustração: Yoshitaka Amano (Exposição Além da Fantasia, CCBB BH, Fevereiro de 2026)

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