Príncipe William e o enigma da torre

Rei. Rainha. Coroas. Família real. Príncipes. Princesas. Móveis reais. Cortinas. Tapetes. Camas. Jardins reais. Palmeiras. Lagos. Arbustos. Grama.  Realeza. Duque. Marquês. Conde. Visconde. Barão. Súditos. Castelos. Muros. Naqueles tempos o príncipe William, que gozava de todos os proveitos de ser filho do rei, experimentava uma inquietude obscura.

Certo dia, tomado por estranho incômodo que causava reviravolta em seu íntimo, pediu a seu súdito mais fiel, Joseph, que preparasse seu cavalo em segredo. Cavalgou quilômetros até encontrar-se bem longe do castelo. Longe daqueles muros tão altos quanto a soberba daquela gente. Longe de pedras tão frias e inertes quanto a mediocridade da vida de um príncipe. Muralhas essas tão desprovidas de sentido quanto o modo monárquico de viver. Suspirou. Nunca havia sentido os pulmões tão cheios de ar. Ou nunca havia percebido que respirava.

Em tal ímpeto aventureiro, ao passar por um terreno de transição de uma espécie de bosque para um campo de verde intenso, William acabou por encontrar uma torre. De base circular, era uma torre com uns 15 metros de altura, construída em rocha de um cinza escuro, tonificado pelas marcas do tempo. Não tinha porta, e, de cima de seu cavalo, só podia ver uma modesta janela lá no alto da torre. Fazia sol, mas da janela impunham-se somente sombras.

Deparar-se com tão inusitada figura além dos muros do castelo mexeu com o príncipe. Por vários dias, William retornou para sentar-se aos pés da torre e pensar. Pensava sobre tudo, e insistentemente sobre a vida. Um dia, envolto em um turbilhão de pensamentos, algo lhe irrompeu: e se houvesse uma princesa no alto da torre?

O que ela estaria fazendo lá? De que cor seriam seus lindos cabelos? Qual seria a tonalidade da sua pele macia? E as formas de seu corpo, qual encanto teriam? De qualquer forma, o príncipe estava certo que era a mulher da sua vida e que, ao lado dela, poderia construir uma vida diferente.

William começou a passar ainda mais tempo aos pés da torre. Como não havia entrada, tentou escalá-la várias vezes, e falhou em cada uma delas. Primeiro, usou uma escada que, infelizmente, era curta demais. Depois, tentou lançar uma corda com um gancho na ponta, na esperança de conseguir alcançar a janela: o arremesso de William mal chegava à metade da torre. Tentou ainda escalar segurando-se nas pedras, mas insistentemente caiu nos primeiros metros de subida. Quase quebrou alguns ossos. Para a tristeza de William, não havia no reino escada, corda ou gancho capazes de cumprir o serviço, apesar de seus esforços.

Foi então que nova ideia lhe surgiu: talvez se ele conquistasse os encantos da princesa, que o estaria observando atentamente, ela poderia descer da torre por conta própria. Quem sabe existisse uma porta oculta que só se abre por dentro, ou ela dispusesse de uma forma de descer pela janela, afinal, ele estaria lá embaixo para segurá-la em seus braços com todo o seu amor.

No dia seguinte compareceu à torre munido de seu arco e flecha. Deu seus melhores disparos contra o caule de uma árvore: provavelmente a princesa ficaria impressionada. A cada flecha atirada, William dirigia um olhar confiante à janela da torre, então um sorriso constrangido se esboçava, e novo disparo era feito. Passou a manhã e a tarde fazendo isso, nem sequer se alimentou.

  Depois de tantos disparos, com as mãos calejadas pelo uso da arma de artilharia, William precisou ir embora. Deveria pensar em outra forma de impressionar a princesa. Quem sabe no dia seguinte…

Por Larric Malacarne.

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