Começou assim: o Fábio chegou em casa mais cedo e tinha um homem em sua cama. Não demorou muito a notar que tal homem era atlético e tinha o tórax mais cabeludo do que o seu. Ao lado do visitante misterioso e peludo estava Celina, esposa de Fábio, também nua; expondo, ao mesmo tempo em que profanava, aquelas formas esculpidas por Deus.
O casamento acabou. Não teve jeito. Fábio ainda procurou Celina algumas vezes para argumentar que a tinha perdoado mas ela estava pouco interessada em ouvir. E Fábio se embebedou. Foram semanas a fio afogando a aterradora saudade que, aparentemente, nadava muito bem.
Para a sorte de Fábio, em pouco tempo ele se viu em um novo relacionamento. Era uma companhia especial. Seu beijo era intenso e ardente. Seu toque tinha a graça de possuir qualidades confusas: ora gélido, ora cálido. Depois do amor vinha um devaneio junto com uma estranha sensação de completude que beira aquela que é própria da morte. E ainda tinha aquilo que tornava tudo mais perfeito: a garrafa de bebida não reclamava quando Fábio fazia xixi e não abaixava o assento do vaso sanitário.
Mas os parentes começaram a ficar preocupados. Insistiram para que Fábio abandonasse a, segundo eles, maldita bebida. E assim ele o fez. Nos primeiros dias, suas mãos tremiam como folhas na ventania. A dor de cabeça era insuportável e as horas eram repletas de náuseas. Porém, o que mais lhe doía era o vazio no peito. Isso: o di-la-ce-ra-va. E não havia familiar que pudesse aplacar tamanha dor.
Para evadir-se do escárnio da família, a solução foi manter encontros ocultos com a amada bebida. Afinal, somente aqueles beijos estonteantes faziam Fábio esquecer que tinha um coração, um coração que doía.
Por Larric Malacarne.
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