É normal sentir-se triste?

É sexta-feira à noite e um grupo de pessoas está reunido em volta de uma mesa repleta de guloseimas. Um vinho aqui e ali, garrafas de cerveja abertas por todos os cantos. A impressão que paira no ar é que nem todos são amigos. As pessoas estão divididas e, apesar de ser um grupo grande, interagem em duplas, tentando disfarçar o tédio e a falta de assunto. De repente, alguém grita “selfie!”. Todos param e sorriem. A foto que vai parar nas redes sociais dá a impressão de que são conhecidos de infância e que, todos juntos, ganharam na loteria.

Jovens universitários se inscrevem e vão a um congresso acadêmico. Tão logo o debate começa, devido a alguns absurdos ditos pelos palestrantes, os alunos acabam por descobrir que será um congresso muito ruim. Por sorte, receberam o certificado logo que assinaram a lista de presença e podem ir embora tranquilos. Afinal, já podem adicionar essa experiência ao currículo mesmo.

Três ou quatro viajantes caminham pela cidade que acabaram de desembarcar para conhecer. Enquanto dá seus passos, um deles desabafa com os pares sobre sua preocupação: em seu país de origem, sua mãe está doente. Aparece um ponto turístico muito famoso e o viajante preocupado interrompe seu relato para demandar aos colegas: “tira uma mídia minha aqui?”. O sorriso de orelha à orelha improvisado de momento com certeza vai fazer os seguidores pensarem: “que cara de sorte!”.

Exemplos hipotéticos inventados agora, mas tão fáceis de visualizar como verdadeiros. Isso porque todos tratam de algo tão nosso e tão atual: substituir o todo pela parte. Mas muita calma nessa hora! Não pode ser qualquer parte. Precisa ser um fragmento da realidade que nos faça sair como bem-aventurados.

Um encontro tedioso entre pessoas que mal se conhecem é substituído por um registro que mais parece ilustrar a reunião do século. Um congresso em que mal ficamos ou nos demos a oportunidade de ouvir converte-se em uma experiência enriquecedora (do currículo). Um viajante aflito pela saúde da própria mãe torna-se a pessoa mais sortuda do mundo.

Aos poucos, o conjunto de fragmentos compõe um novo todo, uma nova realidade. Aquele encontro? Foi maravilhoso. O congresso? Ótimo, riquíssimo. E a viagem? Tranquila e cheia de paz.

Mas nessa história toda tem um grande porém. Na parcialidade da vida que elegemos para mostrar ao mundo não há espaço para tristeza e fragilidade, é verdade. Aliás, ter fragilidades ou sentir-se triste passa a ser um pecado. Mas isso não faz com que nossas tristezas e fragilidades deixem de existir.

Portanto, um lembrete: somos todos frágeis e temos todos tristezas, e não há nenhuma vergonha nisso.  Tristeza e fragilidade são daquelas coisas que nos tornam humanos. Ainda que algumas pessoas prefiram nem pensar nisso.

Por Larric Malacarne.

 

 

 

 

 

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