Qual a diferença entre Psicologia e Psicanálise?

Para muita gente, é pouco claro e frequentemente confuso compreender qual a diferença entre Psicologia e Psicanálise. Comigo não foi diferente, mas os contrastes existem e eles precisam ser apontados. 

No começo da minha formação em Psicologia eu me intrigava com a seguinte questão: quais as diferenças entre Psicologia e Psicanálise? Eu sempre ouvia de meus professores psicanalistas que a psicanálise é uma coisa completamente outra, mas para mim era difícil compreender em que sentido. Afinal, se eu estava em um curso de psicologia e a psicanálise era uma coisa tão outra assim, por que diabos eu tinha tantas disciplinas de psicanálise na graduação? 

Além disso, é inegável o quanto a própria psicologia, de maneira geral, integrou a si própria discursos, conceitos e práticas que surgiram em contextos psicanalíticos. É o exemplo de todas as modalidades de psicoterapias individuais propostas pelas diferentes correntes teóricas em psicologia, que – queiram ou não – surgiram como alternativas ao modelo psicanalítico de Freud. Isto faz do modelo psicanalítico, se não a inspiração, o ponto de partida necessário para o desenvolvimento das demais práticas, um ponto na história que precisou existir para que depois dele outras coisas viessem a ser propostas.

Outros exemplos podem ser aqui considerados, como é o caso do percurso histórico dos modelos de psicoterapia breve ou das técnicas de psicoterapia em grupos. Se formos estudar essas temáticas, veremos que se os psicanalistas não foram os pioneiros, eles tiveram forte influência na invenção dessas práticas. Tais fatos ajudavam a borrar os limites entre Psicologia e Psicanálise, assim como me faziam ficar “com a pulga atrás da orelha” e ter dificuldades de compreender de que forma se dá a alteridade da psicanálise em relação à psicologia.

Entretanto, na medida em que aprofundei meus estudos na matriz teórica da psicanálise já não foi mais possível pensar a psicanálise como uma entre as várias psicologias. E ainda que eu fosse chamá-a de “uma psicologia”, precisaria deixar claro que seria “uma psicologia radicalmente diferente das outras psicologias”. Mas que diferenças tão radicais são essas? Aqui vou citar duas que, depois que você compreender, será impossível não perceber a distinção entre Psicanálise e Psicologia.

Dividindo o indivisível

Um conhecido psicanalista lacaniano chamado Luciano Elia, em seu livro Corpo e Sexualidade em Freud e Lacan, publicado pela editora Uapê, afirma que a Psicanálise, enquanto matriz teórica, introduz consequências radicais e irreversíveis para a própria noção de indivíduo. 

Vejamos, todas as perspectivas teóricas da Psicologia partem do pressuposto da existência de um elemento chamado “individuo”. Muitos indivíduos podem formar um grupo, uma comunidade, uma sociedade, mas aquilo que é conhecido como “indivíduo” é a menor parte possível, e isso nunca se discute em psicologia. Entretanto, a psicanálise rompe completamente com essa ideia. A partir do conceito fundamental de inconsciente, a perspectiva psicanalítica introduz no lugar de “indivíduo” o conceito de sujeito, que de forma alguma é equivalente; pois “sujeito”, por definição, é dividido, é não uno, comporta conflitos, forças e desejos díspares.

Assim, a postulação do conceito de inconsciente é o ato pelo qual a Psicanálise divide o que em Psicologia é indivisível, divide o “in-divíduo”. Tal diferença implica possibilidades de compreensão  e intervenção junto à dinâmicas humanas que, à princípio, parecem paradoxais, mas que partindo do pressuposto de um sujeito dividido e submetido à forças conflituosas entre si, fazem todo o sentido.

Psicanálise não é psicologia, é uma metapsicologia

Anteriormente, quando eu meu referi à psicanálise como “uma psicologia radicalmente diferente das outras psicologias”, talvez tenha sido muito simplório. Deveria ter anunciado logo de cara que a psicanálise não é uma psicologia, e sim uma metapsicologia. Mas de que se trata uma metapsicologia?

Se formos buscar o significado do prefixo “meta” nos dicionários de língua portuguesa, encontraremos que a palavra meta “exprime a noção de reflexão sobre si” ou “exprime a noção de transcendência”. Metapsicologia, então, seria uma psicologia que volta suas reflexões para si mesma ou seria uma psicologia cujas reflexões transcendem para outro plano? Um pouco dos dois sentidos, acredito eu.

Sigmund Freud, o criador da psicanálise, em seu texto O inconsciente, propõe que a metapsicologia descreve os processos psíquicos a partir de três aspectos fundamentais: a) o dinâmico; b) o topográfico e c) o econômico. Correndo o risco de tornar as coisas simples demais, podemos dizer que o aspecto dinâmico diz respeito ao funcionamento do aparelho psíquico, seus procedimentos e funções; o topográfico refere-se à localização de uma representação psíquica, a saber, se ela é inconsciente ou consciente. Já o aspecto econômico relaciona-se com as operações de transferência e fixação da energia psíquica, a libido.

Assim, diz-se que nas explicações e intervenções formuladas a partir da perspectiva metapsicológica leva-se em consideração todos estes aspectos, e isto demarca outra diferença radical entre Psicanálise e Psicologia.

Os dois pontos que foram destacados possuem papel na base de todas as outras diferenças envolvidas na comparação entre Psicologia e Psicanálise e ajudam a perceber que elas estão longe de ser a mesma coisa. Há ainda outras diferenças que poderiam ser trabalhadas, como a escuta em psicanálise, por exemplo. Mas, por hora, ter noção destes contrastes fundamentais já nos ajudam a sair da confusão que pode ser gerada pelo tema.

Se você gostou desta discussão e gostaria de saber mais sobre as diferenças entre Psicologia e Psicanálise, recomendo que leia também um texto que escrevi abordando a questão da formação necessária para ser um psicólogo ou um psicanalista.

Por Larric Malacarne.

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