Etnocentrismo nosso de cada dia

Há algum tempo atrás, durante a minha estadia na cidade de Porto, Portugal, para uma experiência de mobilidade internacional, estive presente em uma palestra sobre a escola enquanto um espaço de inclusão. A experiência foi rica, não pela palestra em si, mas pelo incômodo que ela me provocou.

A discussão proposta estava muito boa. A sensação constante era a de que sairíamos dali podendo pensar coisas sobre a instituição escola que, antes de tal oportunidade, eram inimagináveis. Tudo estava muito lindo. Até que o palestrante resolveu dar um exemplo que se mostrou bastante infeliz.

Começou a contar sobre uma experiência de visita ao Brasil. Pronto, nesse momento, por ser brasileiro, minha atenção se redobrou, meus ouvidos ficaram mais atentos e a expectativa pelo que vinha a seguir me sufocava. Então ele narrou que foi convidado à assistir a determinada apresentação de um projeto com meninos carentes, se não me engano, no Rio de Janeiro. Nas palavras do palestrante, ao chegar no local, ele “se deparou com um grupo de favelados” e pensou: “ai meu Deus, o que esses meninos vão fazer?”. Para o espanto dele, os meninos “começaram a tocar violoncelo” e fizeram uma apresentação linda. Dessa história, segundo o que foi afirmado, o palestrante tirou o aprendizado de que todo mundo, mesmo “meninos favelados”, podem “apropriar-se de cultura” caso haja vontade e métodos adequados para lhes ensinar.

O ápice do incômodo em mim produzido não está no termo “favelados” para referir-se a meninos brasileiros pobres. Isso me incomodou, claro, mas não foi este o ponto. A questão é o fato de que, ao menos me pareceu, em alguma medida este palestrante acreditava que cultura é tocar violoncelo. E nisto reside todo o problema.

Ora, o que torna um violoncelo mais cultural que um berimbau, por exemplo? Por traz da fala do expositor, jaz o pressuposto de que existe uma cultura que é mais cultura do que as outras. Para ele, as culturas são hierarquizáveis e o violoncelo é representante da forma mais nobre.

O que pode legitimar esse tipo de raciocínio? É a indagação derivada do incômodo a partir do contato com essa experiência. Há muito tempo, porém, a Antropologia nos alerta sobre as limitações desse modo de conceber as culturas, dando a ele o nome de etnocentrismo.

Por Larric Malacarne.

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