-Psicólogo é um ótimo conselheiro, certo? Não. Ao menos não deveria. (Parte II)

Em um texto anterior comecei a desenvolver essa questão, que passou longe de ter sido esgotada. Resolvi retomar o tema pois, além de existir mais a ser dito, estava me lembrando de uma conversa que presenciei certo dia. A situação foi a seguinte: uma senhora relatava que não estava conseguindo dormir bem, então procurou um psiquiatra para fazer uma consulta. Essa senhora, contudo, “não gostou muito”do psiquiatra consultado, porque ele “não era muito passador de remédio”. Então ela procurou outro psiquiatra, fez uma nova consulta, e se sentiu feliz por ter conseguido a receita do remédio para dormir que tanto desejava.

Nessa situação ilustrativa, dá-se algo que tem se tornado cada vez mais comum na vida dos seres humanos: a senhora buscava uma pílula que, imediatamente, resolvesse o problema dela de não conseguir dormir. Ingerindo o comprimido, ela não precisaria fazer questionamentos, pelo contrário, dormiria tranquila sem precisar se preocupar com “o que há de errado que não tenho dormido bem?”. Assim, guiadas por esse movimento, as pessoas começam a viver suas vidas sem qualquer implicação sobre o próprio destino.

 Viver a vida como se não tivéssemos nada a ver com ela pode até dar certo por algum tempo, mas duvido que isso nos isente de sofrer as consequências de nossas escolhas. De modo semelhante à situação exposta, muita gente procura um psicólogo ou psicanalista esperando que ele vá tirar da cartola a solução para todos os seus problemas. O terapeuta será, então, aquele que detém a formula mágica para a felicidade, transmitida por meio de seus belíssimos conselhos. Se, porém, o psicanalista ou psicólogo não souber trabalhar essa demanda de salvação, pode ser que, assim como a senhora de quem lhes falei, o sujeito simplesmente mude de profissional.

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Cartola mágica

Este seria um desfecho muito triste, visto que o sujeito sequer poderia questionar-se acerca dos rumos que suas ações o estão levando e reformular o trajeto. Se o terapeuta da mulher de meu exemplo não lhe fornecesse soluções prontas, mas fosse capaz de acolher e trabalhar sua demanda salvacionista, ela poderia ascender ao lugar de senhora das próprias escolhas, senhora do próprio destino. Por exemplo, imaginemos que ela poderia se dar conta do seguinte: “-Ora, não tenho dormido bem pois estou muito preocupada com as contas para pagar, talvez fosse melhor pegar um empréstimo e poder descansar mais tranquila”. Ao menos lhe seria dada a oportunidade de sair do lugar de passividade, a partir do qual simplesmente se aguarda soluções mágicas, sempre vindas dos outros.  

Como já dizia o velho Freud, “qual a sua responsabilidade na desordem da qual se queixa?”. Apesar de simples, este questionamento faz toda a diferença. Por tais questões, mais uma vez insisto: é essencial que o psicanalista, o psicólogo, o terapeuta garanta ao sujeito a responsabilidade por sua vida, por suas escolhas, por suas ações e por seus desejos. As pessoas tem o direito, e a responsabilidade, de serem senhoras de seus destinos. Não quer dizer, porém, que seja fácil. Se assim o fosse, ninguém preferiria escolher as pílulas e soluções imediatas disponíveis por aí.

Por Larric Malacarne

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