Uma jovem e 30 homens

Recentemente o país viu circular notícias do infeliz caso de uma jovem que foi estuprada por cerca de 30 homens – “cerca de” visto que algumas notícias já enumeram como 33 ou 36 homens envolvidos. No Facebook, eu tive contato com algumas reações igualmente infelizes. Como venho tentando fazer ultimamente, ao ficar chocado com um modo de pensar extremamente diferente do meu, procuro refletir sobre quais tipos de pensamentos e pressupostos embasam essas manifestações. Nesse sentido, talvez esse seja o objetivo deste texto: analisar alguns pontos desses discursos que me causaram estranhamento.

A linha argumentativa que pretendo analisar afirma o seguinte: “Jair Messias Bolsonaro defende a castração química para estupradores, mas vocês não gostam dele e o chamam de machista, então não podem reclamar quando uma mulher é estuprada”. Bom, a primeira coisa que precisamos ter em mente no caso de a castração química ser imposta a estupradores é que ela, em si, não evita que o estupro aconteça, apenas castra aquele quem o realizou. No fim, não muda o fato de que alguém foi sexualmente violentado e terá que conviver o resto da vida com o sofrimento proveniente disto.

Outro ponto importante que preciso tocar no tipo de pensamento que embasa essas manifestações é a ideia do estuprador como alguém que comete o estupro devido à sua natureza ruim. Esse tipo de pensamento parte do pressuposto de que é possível existir uma natureza humana, imutável e dada de antemão. Nesse sentido, castrando aqueles indivíduos que possuem essa natureza ruim, com o tempo, menos estupros virão a ocorrer, visto que os “monstros” terão se tornado inofensivos.

Pois bem, ouso dizer que os seres humanos se constituem nas e por meio das relações que estabelecem. Assim, é na sociedade que formamos nossa subjetividade e constituímos aquilo que somos. A partir desse modo de pensar, faz pouco sentido castrar estupradores se o meio social prosseguir formando indivíduos que pensam que podem pegar uma mulher como se fosse um objeto qualquer e simplesmente usá-la. E isso tem muito a ver com o lugar atribuído à mulher em nossa sociedade. Pare um pouquinho para notar o quanto o abuso e a violência permeiam a vida das mulheres, o quanto elas são obrigadas a enfrentar isso cotidianamente… Penso que é nesse sentido que devemos combater a “cultura do estupro”. Forçar a cultura a mudar, para então produzir um meio social que forme sujeitos que não admitam coisas como estuprar alguém. Precisamos lutar para retirar a mulher desse lugar  milenário que lhe foi atribuído, e só assim seremos mais efetivos em diminuir a ocorrência de casos tristes como esse. 

Ao fazer essa análise, tentei desmontar o argumento central em defesa da castração química. Para isso, não toquei no assunto dos Direitos Humanos, pensando sobre esse discurso apenas a partir da perspectiva de sua pouca eficácia. Penso que eu poderia aprofundar essa discussão recorrendo sim aos Direitos Humanos, mas meu conhecimento sobre o tema é demasiadamente limitado para fazer isso de maneira satisfatória. Por fim, nota-se que a castração química seria pouco efetiva para mudar essa realidade, então não faz o menor sentido dizer que não podemos reclamar da ocorrência de estupros porque não gostamos do Bolsonaro.

Por Larric Malacarne

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