Estudante de Psicologia com alguma frequência é indagado sobre os motivos pelos quais escolheu fazer Psicologia. Essa pergunta, apesar de parecer, não é simples de ser respondida. É até curioso como a nossa resposta vai mudando ao longo do tempo… Lembro até hoje como foi estranho quando fui contar para minha mãe que tinha escolhido a minha profissão: Todo animado, cheguei para ela e soltei “-Mãe, já sei o que quero fazer!”. Ela, como eu esperava, me questionou sobre o que era e eu soltei um “Psicologia!” que encontrou como única reação a pergunta consternada “Psicologia?”. Foi barra pesada, mas não desanimei. E na faculdade cada vez que eu respondia a pergunta “Por que você decidiu fazer Psicologia?” minha resposta mudava um pouco aqui, um pouco ali. Cheguei a um ponto que se me perguntassem hoje a resposta seria bastante diferente do que já foi…
Outra coisa que estudante de psicologia ouve bastante por aí, e que é o assunto do presente texto, é que “todo psicologo é louco”. Eu pessoalmente já ouvi isso muitas vezes e sempre reagia com bom humor. Uma vez estava eu fazendo uma nova amizade em um curso de Inglês e o rapaz uniu o útil ao agradável e me perguntou: “- Por que você faz psicologia? Todo psicólogo é louco”. Eu apenas dei risada mas ele não ficou muito satisfeito com minha resposta e parecia esperar que eu comentasse a fala dele. Pois bem, comentei algo como: “Cara, eu não diria nem que a loucura existe”. Foi o suficiente para ele concluir: “Aí tá vendo? Você é louco.”. Penso que dei risada e deixei o assunto morrer… Em outra ocasião uma moça, assim que descobriu que eu fazia Psicologia, começou a falar com fervor que todo Psicólogo é louco, que ela tem uma prima que é Psicóloga e é louca e coisas assim. O que me chamou a atenção no discurso dessa moça, e inclusive me motivou a estar aqui escrevendo sobre, foi o quanto ela realmente acreditava naquilo que estava dizendo. Ela falava tudo isso com uma certeza enorme, falava com um tom de voz como se militasse por uma causa e estivesse recrutando membros para o movimento político. Na ocasião, eu apenas me calei, mas foi aí que eu pensei que não dava mais para ouvir essas coisas de forma descontraída, afinal, as pessoas realmente pensam isso, estão certas disso e alguma coisa na vida delas as fez pensar assim.
Como bom pensador que sou, fiquei levantando hipóteses sobre o que será que leva as pessoas a pensarem isso. De fato, o psicólogo ter ou não ter sofrimento psíquico não é a questão aqui trabalhada. Psicólogos são seres humanos e o sofrimento psíquico, na nossa sociedade, está posto para os humanos. Não é uma formação em Psicologia que te torna imune a ele. Enfim, gostaria de registrar o que penso que pode estar por trás desse tipo de pensamento que carrega uma perspectiva um tanto pejorativa de loucura e da profissão de psicólogo.
Vamos lá. O curso de Psicologia é uma formação definitivamente singular. Acho que dá pra dizer que a gente aprende que a natureza humana determina que de natural o humano tem muito pouco. Nesse ponto qualquer estudante de biológicas deve estar agitado, mas peço calma que vou esclarecer, pois não estou falando do corpo biológico e é claro que as leis da biologia valem para o humano também. Estou me referindo aos modos de ser e se comportar, e tudo aquilo que acreditamos que sempre foi assim. Um estudante de Psicologia aprende, ou pelo menos eu aprendi, que diversas instituições (como o casamento monogâmico, por exemplo) que são rotineiramente pensadas como algo natural, posto de antemão – algo que sempre foi assim e sempre vai ser – é construído socialmente, tem um momento de surgimento na história e pode mudar, ou mesmo vir a deixar de existir. Nesse sentido, passamos anos discutindo a construção de modos de pensar que permeiam a vida das pessoas. Ser homem, ser mulher, o casamento, a loucura e etc. são conceitos que já não mais pensamos como naturalmente dados, já não mais aceitamos como prontos.
Nesse sentido, a formação em Psicologia é uma coisa que choca ideias, transforma modos de pensar, estilhaça preconceitos. Ao final do processo temos um ser cuja singularidade o faz marginal aos modos comumente aceitos de ocupar o social. O Psicólogo é um ser exorbitante, no sentido de fora da órbita, fora da forma ordinária e rotineira dos modos de pensar cotidianamente aceitos. E qual adjetivo temos para descrever algo que foge à norma, foge aos padrões? O conceito de loucura se apresenta às voltas com isso, como aquilo que escapa à ordem, ao comum. Enfim. A hipótese que levantei é que os modos de pensar tão diferentes e próprios dos psicólogos podem participar nesse processo de fazer as pessoas pensarem que estes profissionais são loucos.
Da próxima vez que eu ouvir alguém comentando que todo psicólogo é louco vou tentar verificar melhor o que está determinando esse tipo de pensamento e ver se essa hipótese é válida ou não. Mesmo assim, essa questão nos coloca desafios enquanto profissionais: que tipo de linguagem estamos usando para comunicar nossos modos de pensar? Estamos conseguindo transmitir o que tínhamos como intenção? Qual a imagem da profissão de psicólogo que passamos para as pessoas? Qual queremos passar? Como transmitir essa imagem? E, para encerrar esta reflexão, devemos transmitir alguma imagem de profissão?
Por Larric Malacarne
Bom site