O casamento na atualidade: mudanças de ontem pra hoje

Na cultura ocidental, a forma como o ser humano se organiza em sociedade e as instituições por ele criadas para sustentarem essa vida em coletivo têm mudado muito nas últimas décadas.

Especial destaque podemos dar às relações monogâmicas, à instituição “casamento”. À princípio pode parecer que não, mas o casamento, da forma como conhecemos hoje, nem sempre existiu. Ele foi construído socialmente. E continua em construção. Por exemplo, o direito ao casamento entre homossexuais é realidade recente no Brasil, de modo que foi necessária muita luta por parte dos movimentos sociais para a conquista do direito à união civil entre pessoas do mesmo gênero. 

Para nos ajudar a compreender que o casamento não é algo natural e imutável, mas sim cultural e construído, mais um exemplo pode ser dado: em diversos países com bastante influência da religião muçulmana, a poligamia é legal e praticada. Isso tudo implica que preciso deixar claro a qual casamento pertence as mudanças que me refiro aqui: ao casamento heterossexual, ocidental, de influência cristã. Mas é provável que tais mudanças ajudem a pensar também o casamento homossexual.

Desde a origem e por muito tempo o casamento monogâmico teve a função ligada à preservação e acumulação de bens materiais. Tratava-se de um contrato, firmado entre dois indivíduos pertencentes a duas famílias distintas, com papéis e objetivos bem definidos. No fim das contas, o poder econômico das famílias se unia e permanecia protegido.

Inserida neste contrato estava a sexualidade, que até então era sinônimo de procriação. Ou seja, a relação sexual no casamento restringia-se a fins reprodutivos. Com uma configuração assim, não era necessário amor no casamento.

Ora, o que unia as pessoas era justamente a força dessa convenção social. Os objetivos eram bem claros e dados de antemão, o amor era uma uma consequência – e olhe lá. O fato era que as pessoas não precisavam amar para se casarem. Neste contrato, porém, tinha uma letra miúda. Ou talvez nem tão miúda assim, pois, todos sabiam disso: o casamento deveria durar para toda a vida.

Todavia, diversas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram radicalmente a lógica que organiza as relações monogâmicas, mudaram o nosso jeito de conceber o casamento. Agora,  o que faz com que nos casemos é o amor e o desejo de ser feliz em um projeto de vida à dois.

Além disso, essas mudanças garantiram alterações importantes nos papéis tradicionalmente atribuídos pela sociedade ao homem e à mulher. Para além dos direitos de votar, trabalhar, dirigir, chefiar a família, a mulher ganhou maior liberdade e controle sobre o próprio corpo com a invenção dos métodos contraceptivos. Isto insere oportunidades inéditas no domínio da sexualidade, que foi ampliado de forma importante.

Gradualmente, a sexualidade passou a ser encarada como um meio de obter prazer e bem estar. Se antes bastava o coito com a ejaculação para a procriação, agora a perspectiva do prazer e do bem estar torna possível e estimula a exploração das zonas erógenas. Se antes os principais órgãos sexuais eram os genitais, agora nosso principal órgão sexual passa a ser o cérebro. As carícias, as fantasias, a imaginação, em outro momento dispensáveis no sexo para reprodução, tornam-se parte fundamental.

No que se refere à mudança nos papéis de gênero, aquilo que é ser homem ou mulher torna-se cada vez menos definido e imposto pela sociedade. Não que este processo já tenha avançado tanto assim, mas aos poucos a mulher tem-se libertado do papel de submissa ao homem e à lógica do cuidado com o lar. Alguma liberdade tais mudanças também trouxeram ao homem: se antes ele precisava ser uma espécie de máquina provedora, agora pode ter acesso ao plano dos sentimentos, das emoções. Pode chorar. Assim, em alguma medida, passa a caber às pessoas a tarefa de inventarem que tipo de homem ou mulher serão.

Entretanto, se no passado a força de uma convenção era suficiente para manter as pessoas casadas a vida toda, o amor e o desejo de permanecer juntos não parece incluir uma cláusula assim. Dessa forma, tem-se verificado um número maior de divórcios na atualidade.

Isso não é motivo para ficarmos aflitos e deixarmos de acreditar no casamento, porém. Há uns oito anos, conheci um homem que, entre risadas, bradava: “casamento é tão bom que eu já me casei cinco vezes”. De fato, os dados parecem mostrar que é bom mesmo, afinal, o número de recasamentos é enorme. A maioria das pessoas que se divorcia volta a se casar adiante, em outro momento da vida.

Tudo isso aponta que nossa sociedade está em constante evolução, e há de mudar muito mais. Por isso, quando eu penso na quantidade de coisas que poderiam melhorar em nosso modo de nos relacionar, saber que nem sempre foi assim talvez possa servir de um consolo: já mudou tanto, ainda há esperança.

Por Larric Malacarne.

 

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