A saga de um herói – Capítulo I

Era uma tarde de sábado ensolarada. Do lado de fora, o costumeiro caos e barulho dos veículos sobrevoando em alta velocidade. Mas dentro daquela velha biblioteca reinava uma paz que somente o aconchego de casa pode trazer. As paredes eram repletas de estantes curiosíssimas que, por sua vez, continham livros de todas as cores. A luz do sol invadia o ambiente pelo vidro da janela, iluminando a sala e produzindo matiz que ia do vermelho ao roxo em uma espécie de reflexo no teto. No canto, duas poltronas e uma mesa. Lá estavam o velho e seu neto, onde a geração passada tentava dar uma aula de xadrez para a que estava ainda descobrindo a vida.

O velho era meio careca, tinha umas sardas na porção da cabeça onde outrora existiu uma cabeleira. Olhos de um preto intenso, cansados e experientes. O menino tinha 09 anos de idade e, ao contrário do avô, carregava sobre a cabeça porção suficiente de cabelos para cobri-la por inteiro. Estupidamente lisos, de tom amarelado e, apesar de mirrados, seus cabelos assumiam com alguma clareza a forma de uma tigela. Nos olhos da criança repousavam a curiosidade do mundo.

Impaciente, o menino interrompeu: “- Vô, isso aqui tá muito chato!”

“-Há há há, ainda achei que você aguentou bastante. O que quer fazer então?”

“-Me conta alguma história da sua juventude?!”

“Hum… Uma história? Pode ser uma história que aconteceu aqui nessa cidade bem antes da sua mãe nascer?”

O menino se animou. E o velho suspirou fundo. Parecia revisitar memórias, buscar detalhes do que iria contar. Depois de alguns segundos, começou a narrar com aquele bom humor que só um velho careca tem.

 Por muitos anos a pequena cidade de Campos Silvestres teve muito pouco com o que se preocupar. Naquele tempo ainda não existiam carros que voam e nossa cidade tinha cerca de 60 mil felizes habitantes. Estava em pleno desenvolvimento. As crianças estavam na escola, não faltava emprego e a criminalidade era uma das mais baixas do país. Se havia alguma coisa errada com o resto do Brasil, em Campos Silvestres estava tudo certo.

O motivo de tantas qualidades foi o misterioso aparecimento de um super-herói naquela época. Ninguém sabia ao certo de onde ele veio e nem o porquê. Mas rumores não faltavam. Alguns diziam que ali ele resolveu fazer morada porque não tinha família. Outras línguas um pouco mais perversas comentavam que ele chegou ali fugindo de alguma coisa.

De qualquer forma, todos o chamavam de Super Tampa. Tão gracioso nome provavelmente veio da sua super-habilidade de ajudar em todas as horas em tudo aquilo que fosse preciso: tapava qualquer buraco. Uma vez até lhe pediram para colar uma caixa-d’agua que tinha furado! Era ou não era uma benção para a cidadezinha?

Naquele dia aparentemente tudo estava tranquilo, exceto nosso herói. Super Tampa estava no esgoto, onde morava, cozinhando seu almoço. Assoviava ansioso enquanto pensava: “Meus superouvidos não captando nada hoje. Nem sequer um chamadinho, um socorrinho, um vem aqui rapidinho. Que pena”.

Mas suas aflições acabaram rápido. O arroz ainda nem tinha acabado de cozinhar quando percebeu um chamado. Era seu Raimundo, que a 15 quilômetros dali repetia: “Super Tampa, preciso de você”. E Super Tampa foi voando até lá tão logo ouviu tal clamor. Até esqueceu o arroz no fogo.

“-Ô Super Tampa, que bom que você apareceu. Tem que trocar esse pneu aí”.

“-Seu Raimundo, o que aconteceu?”.

“-Eu estava vindo com pressa e tinha uma pedra no caminho. Até passou pela minha cabeça desviar, mas eu precisava ir rápido. No baque, meu pneu estourou”.

Super Tampa prontamente se transformou em uma chave de rodas e trocou aquele pneu em menos de 01 minuto. Seu Raimundo seguiu viagem e o herói voltou para o esgoto. Precisou recomeçar a fazer seu almoço…

Enquanto cozinhava, uma ratazana mordeu seu dedão do pé. Doeu, sangrou, mas Super Tampa precisava acabar aquele almoço e apenas espantou o animal. Até conseguiu terminar, é verdade. Sentou-se em uma mesa improvisada com madeira de entulho, a qual não excluía o risco de desabar e derrubar tudo na agua do esgoto, e preparou-se para comer. Segurou a colher e olhou para aquele prato salivando. Seus olhos reviravam de fome. Pegou a primeira porção de comida e ia levando à boca quando sua incrível audição captou alguma coisa: “Super Tampa, venha rápido, estou em perigo”.

E ele largou tudo e voou. Voou como se não houvesse amanhã. Chegou até dona Cremilda e encontrou-a estática, ereta e paralisada. Parecia em estado de alerta. Assustado, ofegante, ele indagou:

“-Dona Cremilda! O que houve?”

“-Ai Super Tampa, que bom que você apareceu! Imagina só, eu vinha caminhando e meu sapato desamarrou. Estava morrendo de medo de dar mais um passo e subitamente cair no chão.”

Super Tampa não hesitou. Transformou-se rapidamente em uma grande agulha e costurou os cadarços de dona Cremilda, para que ela nunca mais corresse tamanho perigo. Aliviado, ele pôde voltar para casa e comer sossegado.

“-Vô, para um pouco, pera aí.” – O menino interrompeu a história que o velho estava a contar. Recebeu do avô um olhar de quem pergunta “o que foi?” e prosseguiu:

“-O Super Tampa é burro? Ele faz umas coisas estranhas. Ele estava morrendo de fome, mas aí abandonou o almoço pra ir amarrar o cadarço de um sapato?”

“-Não meu filho, não é isso. Para o Super Tampa, o bem estar do outro é muito importante. É vital.”

O menino sossegou. E o velho prosseguiu: “Onde eu estava? Ah, é verdade, o Super Tampa conseguiu comer…”

Depois do almoço aquele destemido herói começou a ficar inquieto. Já fazia muito tempo que não escutava qualquer pedido de ajuda. Será que a cidade estaria a salvo? O coração palpitava. De repente, um sussurro: “Super Tampa, você está aí? Pode vir aqui rapidinho?”. Não houve muito tempo para resposta verbal. Em alguns instantes o solícito ajudante de todos já estava no local do problema.

Encontrou o jovem Bernardo em um banheiro, em situação bastante delicada. O pobre coitado tinha acabado de defecar quando notou que não havia mais papel higiênico.

“-Oi Super Tampa, que bom que você veio. Acho que você já deve ter entendido a gravidade da minha situação. Estava aqui fazendo minhas necessidades quando notei que não tinha papel. A primeira coisa que me veio em mente foi: “isto é um trabalho para aquele carinha.”

Super Tampa já ia se transformando em um rolo de papel higiênico quando Bernardo gritou:

“-Não! Pera! Isso seria muito constrangedor. Você pode, por favor, ir comprar papel pra mim? Tem um mercado aqui pertinho.”

E o herói foi voando até lá e comprou com seu próprio dinheiro 100 pacotes do produto, para que Bernardo não mais enfrentasse tamanha dificuldade.

De repente, o interfone tocou e uma voz conhecida indagava: “Pai, você está aí?”. Era uma voz doce, feminina. O menino deu um pulo da poltrona e foi logo abrir a porta.

“-Mãe! Entra! O Vô tá contando uma história muito legal de um herói bem doidinho.”

De imediato, a mulher fingiu que não ouviu e foi entrando:

“-Oi pai, como o senhor está?”.

“-Estou bem minha filha, e você?”

“-Bem também, e cheia de pressa.”

Depois, virou-se para seu filho e disse:

“-Olha filho, eu já vim para te buscar. Ainda precisamos ir no mercado. Dá tchau pro seu avô!”

O menino fez cara feia, reclamou, protestou: “-Mas mãe! Ele tava no meio da história!”. O avô interveio:

“-Não tem problema meu filho, sábado que vem você pede pra ela te trazer aqui de novo e eu continuo a história. Eu até gosto da ideia porque você tem um motivo pra me visitar mais vezes.”

Então o menino e a mãe foram embora. O pequeno estava com um bico do tamanho do mundo, não parecia estar animado com a ideia de esperar uma semana para saber o que mais aconteceria. A mãe, enquanto andava e atendia o celular, segurava a mão do garoto, abria a porta do carro, ajudava ele entrar, ligava o carro e pilotava. O avô assistia tudo e dava risada, como quem encontra beleza na concretude da vida.

Por Larric Malacarne.

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