O que a Psicanálise possibilita aos sujeitos?

Você já sentiu isso?
Sim, provavelmente você já sentiu. A incômoda sensação de ter enroscado em algum ponto da vida. É incompreensível, por algum motivo, as coisas simplesmente não caminham como você esperava. Aquele Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) converte-se em uma interminável peregrinação.  As pessoas à sua volta não te valorizam como você imaginava. O amor parece não ser para você. No trabalho, apesar de saber o que precisa fazer, insistentemente você não consegue obter o que almeja. O mundo conspira contra os seus desejos.

Em todos estes casos, procurar um psicanalista pode fazer toda a diferença na sua vida. Mas o que a Psicanálise possibilita aos sujeitos? Não é só para desfazer enrosco que um psicanalista serve. Aliás, o desatar dos nós que a vida parece nos apresentar é um processo que vai ocorrendo no percurso de uma análise, conforme alterações mais profundas se operam no sujeito. E isso não tem nada a ver com alguma espécie de ritual esotérico.

O processo de uma psicanálise é tão rico e tão transformador que todo psicanalista precisa passar pela experiência de ocupar o lugar de paciente para tornar-se terapeuta. No meio psicanalítico, é comum dizer-se que é no divã que um psicanalista se forma. Aliás, o sucesso das análises levadas a cabo por um psicanalista depende intimamente de até que ponto ele foi capaz de avançar na própria análise. Afinal, ninguém é capaz de escutar as mazelas das pessoas se ainda permanece assombrado e não pôde encarar os próprios fantasmas, as próprias caretas, os próprios horrores.

Pois bem, eu também conheço com proximidade o lugar de paciente. Minha formação tem passado por ele. E é a partir da experiência de já ter ocupado tanto o lugar de paciente como o de analista, assim como já ter alguma bagagem de estudos no campo psicanalítico, que posso destacar alguns pontos em que a psicanálise pode operar transformações na vida das pessoas.

O processo de análise inevitavelmente acaba por produzir uma nova forma de estar, de interpretar e de reagir ao mundo. Explico. Acontece que a vida é sim cruel. A sociedade é sim injusta. E temos sim nossas desgraças. Quem pode dizer o contrário? Entretanto, o que nós fazemos com essas desgraças faz toda a diferença. É justamente naquilo que fazemos com o que fizeram da gente que habita a nossa oportunidade de sermos donos de nossos próprios destinos.

O fato é que a todo momento estamos fazendo escolhas, e escolher permanecer apenas se queixando é uma entre as opções. Mas é só aprendendo a ser donos dos nossos próprios destinos  que podemos nos tornar escritores de nossa própria história.

É verdade que há coisas que não temos nenhuma capacidade de controlar e a vida vai continuar repleta delas. Mas aprendendo a se posicionar de modo a reconhecer e tomar posse daquela parcela de responsabilidade que cabe somente a nós mesmos, podemos mudar o final que a aventura de nossas vidas terá.

Falando nisso, acredito ser possível afirmar que ao passar por uma psicanálise, não só podemos mudar o final, mas nos é dada uma chance de fazer uma revisão e reestruturação de nossa história emocional que já foi escrita, o que produz alterações profundas em nosso modo de perceber a nós mesmos e os outros, nos relacionar, amar e trabalhar.

Isso pelo fato de que cada ser humano, ainda que não tenha consciência disso, possui uma narrativa sobre sua história emocional e pessoal que determina o modo de estar e agir sobre o mundo. Ao ter a oportunidade de revisitar nossa história e os cantos mais obscuros dela, podemos a recontar com novas palavras e atribuir novos significados, e então seremos capazes de mudar definitivamente a forma como nos comportamos. Ou seja, a psicanálise nos possibilita criar um presente e um final diferente para a narrativa de nossas vidas.

Para ilustrar o que estou tentando dizer, vou tentar inventar um exemplo. Fulano da Silva vive se colocando em situações difíceis por não saber dizer não às pessoas. Não sabe o motivo, mas quando vê, já está fazendo algo que nem queria por não conseguir se posicionar, manifestar sua vontade de não fazer determinada coisa. Este é o comportamento.  Fulano da Silva pode escolher conviver com isso. Mas pode ser que ele procure um psicanalista.

Assim, continuando nosso exercício de imaginação, no decorrer do processo de análise, é possível que ele descubra que em algum momento de sua vida teve experiências para as quais atribuiu o seguinte significado: “eu preciso fazer o que as pessoas querem pois só assim serei aceito”. Este é o significado por trás do comportamento de não conseguir ser assertivo. Pois bem, ao tomar conhecimento dessa narrativa, Fulano da Silva pode perceber que esse significado que atribuiu à experiências antigas estão tendo efeitos ainda hoje, mesmo que já não faça mais sentido pensar assim.

Isso ocorre porque os significados por nós construídos para as experiências que vão compondo nossa vida podem nos aprisionar. Podem fazerem-se como correntes que nos mantém atados a um só jeito de operar na vida, como no caso de Fulano da Silva, que operava em sua vida sempre como aquele quem deve agradar aos outros. Nesse sentido, a Psicanálise pode ser um martelo que nos possibilita romper essas correntes, nos deixando livres para reformular significados e, assim, alterar comportamentos. Uma vez rompida a prisão constituída por esse significado antigo que as experiências de Fulano da Silva receberam, ele estaria livre para criar novos significados para suas experiências atuais e, assim, agir também de forma distinta.

Há situações mais delicadas, porém. Refiro-me àquelas em que experienciamos coisas que sequer puderam receber sentidos, significados.  Isto tem a ver com o traumático em Psicanálise. São coisas pelas quais passamos e permaneceram não simbolizadas,  não fomos capazes de as inserir nas narrativas de nossas vidas. Os efeitos do traumático são diversos, e não cabe aqui os explicar.

Entretanto, destaca-se que em tais casos, a análise será fundamental para que essas experiências sejam integradas e possam fazer parte de nossa narrativa pessoal. Ainda que simbolizada como experiência extremamente triste, uma vivência simbolizada será sempre menos danosa do que uma experiência que não pôde fazer sentido.

Diante de toda essa conversa, começamos a perceber que a psicanálise trabalha mais com os significados dos comportamentos do que com os comportamentos em si. Ora, duas pessoas podem apresentar exatamente o mesmo comportamento e, porém, devido a motivos completamente diferentes.

Outro ponto que eu considero de grande importância dentre os benefícios de uma psicanálise refere-se àquele em que, gradualmente, vamos aprendendo, aceitando e internalizando o fato de que, no fim das contas, não somos grande coisa. Enquanto seres humanos, há uma condição que, queiramos ou não, está posta para nós: somos mortais, cheios de defeitos, finitos, perpetuamente incompletos. Isso quer dizer que não podemos saber tudo, aprender tudo, controlar tudo, entender tudo, ser amados por todos, etc…

Ter acesso a uma espécie de plenitude, um estado em que nada falta, nos afastaria do humilde campo dos seres humanos. Isso, à princípio, pode parecer triste e difícil de aceitar. Mas, e logo percebemos, implica uma liberdade extrema: a impossibilidade de ter ou ser tudo é justamente aquilo que nos garante a possibilidade de ser ou ter alguma coisa. É a nossa falta estrutural que mantém o mundo em movimento, nos mantém desejando e, assim, buscando e encontrando coisas novas. A impossibilidade de uma felicidade total garante que possamos ter, inúmeras vezes, alguma felicidade. Notou a importância?

Agora que já falamos sobre todas essas possibilidades, você pode estar pensando que basta analisar como estão tais questões em si mesmo para, então, poder mudar a forma que vem agindo. Nesse caso, sugiro cuidado. Bem ou mal, a nossa forma de estar e reagir ao mundo representa o melhor que o nosso aparelho psíquico foi capaz de fazer nas condições às quais ele foi submetido. Portanto, procurar a ajuda de um profissional psi sempre vai ser boa ideia.

Por Larric Malacarne.

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